Drops literário, fragmento do livro: Sustentada no ar por negras asas fracas Arte digital, gerada por inteligência artificial. Créditos: Texto de Clarisse Cristal e direção de arte, arte final e redação de Samuel da Costa, poeta e contista em Itajaí, Santa Catarina.
"Eu ousei adentrar...
Em mundos desconhecidos da minha vida cotidiana,
Como se houvesse uma vida com algo,
Ou alguém que, ao longe, clamava por mim."
Fabiane Braga Lima
Antes de adentrar na câmara ardente, a almirante Bartira teve poucos nanosegundos, mas o tempo foi suficiente para tecer algumas considerações sobre a afra rainha Luna Dark e os passos tortuosos que a milady celestial percorreu após deixar o deserto desolado. Depois que a afra rainha embarcou no Dirigível Mare Crisium e adentrou a Bifrost, desembarcou da belonave e, por fim, se embrenhou na Turris ebúrnea.
O que houve de fato dentro da Turris ebúrnea, a almirante Bartira não sabia, mas teve uma vaga ideia do que se desenrolou ali, pois, pela imprudência de abandonar o exílio imposto por Hastur e devido à conexão neural, a militar de alta patente compartilhou as sensações avassaladoras de vazio, desespero e abandono quando a afra rainha Luna Dark percebeu, por fim, que o vate Yendel ali não se encontrava mais, na Turris ebúrnea.
O passeio em si da aristocrata, membro da corte de Hastur, pelos domínios etéreos do deus cibernético Calibor, tinha tudo para dar errado. E Bartira, a militar de alta patente, teve a noção exata da tragédia em si quando a afra rainha voltou ao mundo em vigília e reincorporou o avatar que havia deixado para trás. Foram dias e noites na terra dos sonhos, o que significava poucos minutos na terra em vigília.
A afra rainha Luna Dark produziu uma onda magnética devastadora ao reincorporar o avatar. Ela fez ruir o elevado da autopista, que fez ruir a segunda pista e, por sua vez, soterrou a primeira pista. Além de sair ilesa da devastação, gerou muitas mortes e feridos, e a onda magnética também promoveu distúrbios em aparelhos elétricos, mecânicos e eletrônicos por quilômetros.
Como uma das poucas vítimas sobreviventes, a afra rainha Luna Dark teve que se reinventar ao longo dos anos, depois de um longo tratamento psiquiátrico. Bartira foi informada de que Luna havia se reinventado e assumira um cargo menor em um parlamento — na verdade, na câmara alta — e, logo no primeiro dia, a aristocrata quase matou uma mulher. Nos dias seguintes, a milady exilada da corte negra de Hastur começou a burilar o ambiente usando a telecinese.
E não demorou muito para o deus cibernético Calibor descobrir que a afra rainha Luna Dark havia levado consigo o palácio das memórias do vate Yendel. Yendel, o bibliotecário-mor de Calibor, encontrava-se desativado — o cyborgue depositário do acervo de todas as aquisições e saques efetuados em civilizações e planetas que Calibor promoveu durante incontáveis eras.
O final desse imbróglio não poderia ser outro: o funeral Lavívi. As exéquias imperiais fúnebres deveriam ser executadas, mesmo a afra rainha Luna Dark e o vate Yendel não sendo casados formalmente. Pois a afra rainha Luna Dark, como uma imortal semideusa, e o vate Yendel, sendo um cyborgue nascido de uma explosão de supernova, também não poderiam morrer. Lançá-los ao astro-rei foi a solução — era assim o rito do funeral Lavívi, raramente utilizado.
A almirante Bartira, recém-promovida, teve essa incumbência, pois o funeral imperial Lavívi somente poderia ser executado por um almirante — um militar de alta patente consagrado nos campos de batalha. Mas Bartira teve outra ideia, estapafúrdia a princípio, porém, depois, sussurros heréticos aqui e ali — vozes veladas — davam conta de um mito esquecido há muito tempo: a união de máquinas e seres vivos. Não que isso fosse uma novidade, pois Yendel era um cyborgue. O desafio era unir os dois seres celestes, ambos detentores de poderes inimagináveis e quase ilimitados. E a almirante Bartira pesquisou a fundo e descobriu a existência de um rumor vago de que algo próximo disso já havia ocorrido — e as pesquisas apontavam para o palácio da memória do vate Yendel.
Ao adentrar na câmara ardente, feita de energia quântica, a almirante conecta-se ao cyborgue Yendel, que estava encapsulado na sala da proa do vaso de guerra, o Dirigível Mare Crisium. A almirante Bartira adentra a finitude do palácio das memórias do vate. Ela se multiplicou e se multiplicou e se multiplicou em um ciclo infinito. Pergaminhos digitais foram vasculhados, bancos de imagens foram assistidos, arquivos de áudio foram ouvidos e analisados. Hologramas foram projetados, antigos alfarrábios consultados e proibidos grimórios recitados. Sigilos místicos, há muito esquecidos, foram invocados; cânticos sagrados foram entoados; poemas foram bradados; e virtuais computadores quânticos foram ligados. E, por fim, a almirante encontrou o que procurava. A câmara ardente se desfez, e a almirante Bartira foi lançada ao chão, exausta. Na mente da militar surgiu um nome: o Protocolo Lavívi, por fim, fora encontrado.
Fragmento do livro: Sustentada no ar por negras asas fracas — texto de Clarisse Cristal, poetisa, contista, cronista, novelista e bibliotecária em Balneário Camboriú, Santa Catarina.
Argumento de Samuel da Costa, poeta, contista e novelista em Itajaí, Santa Catarina.
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