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sábado, 14 de fevereiro de 2026

Ópera Mundi — décima parte: Epílogo — segunda parte

Drops literário, fragmento do livro: Sustentada no ar por negras asas fracas Arte digital, gerada por inteligência artificial. Créditos: Texto de Clarisse Cristal e direção de arte, arte final e redação de Samuel da Costa, poeta e contista em Itajaí, Santa Catarina.

 


"Eu ousei adentrar...
Em mundos desconhecidos da minha vida cotidiana,
Como se houvesse uma vida com algo,
Ou alguém que, ao longe, clamava por mim."
Fabiane Braga Lima

 

Antes de adentrar na câmara ardente, a almirante Bartira teve poucos nanosegundos, mas o tempo foi suficiente para tecer algumas considerações sobre a afra rainha Luna Dark e os passos tortuosos que a milady celestial percorreu após deixar o deserto desolado. Depois que a afra rainha embarcou no Dirigível Mare Crisium e adentrou a Bifrost, desembarcou da belonave e, por fim, se embrenhou na Turris ebúrnea.

O que houve de fato dentro da Turris ebúrnea, a almirante Bartira não sabia, mas teve uma vaga ideia do que se desenrolou ali, pois, pela imprudência de abandonar o exílio imposto por Hastur e devido à conexão neural, a militar de alta patente compartilhou as sensações avassaladoras de vazio, desespero e abandono quando a afra rainha Luna Dark percebeu, por fim, que o vate Yendel ali não se encontrava mais, na Turris ebúrnea.

O passeio em si da aristocrata, membro da corte de Hastur, pelos domínios etéreos do deus cibernético Calibor, tinha tudo para dar errado. E Bartira, a militar de alta patente, teve a noção exata da tragédia em si quando a afra rainha voltou ao mundo em vigília e reincorporou o avatar que havia deixado para trás. Foram dias e noites na terra dos sonhos, o que significava poucos minutos na terra em vigília.

A afra rainha Luna Dark produziu uma onda magnética devastadora ao reincorporar o avatar. Ela fez ruir o elevado da autopista, que fez ruir a segunda pista e, por sua vez, soterrou a primeira pista. Além de sair ilesa da devastação, gerou muitas mortes e feridos, e a onda magnética também promoveu distúrbios em aparelhos elétricos, mecânicos e eletrônicos por quilômetros.

Como uma das poucas vítimas sobreviventes, a afra rainha Luna Dark teve que se reinventar ao longo dos anos, depois de um longo tratamento psiquiátrico. Bartira foi informada de que Luna havia se reinventado e assumira um cargo menor em um parlamento — na verdade, na câmara alta — e, logo no primeiro dia, a aristocrata quase matou uma mulher. Nos dias seguintes, a milady exilada da corte negra de Hastur começou a burilar o ambiente usando a telecinese.

E não demorou muito para o deus cibernético Calibor descobrir que a afra rainha Luna Dark havia levado consigo o palácio das memórias do vate Yendel. Yendel, o bibliotecário-mor de Calibor, encontrava-se desativado — o cyborgue depositário do acervo de todas as aquisições e saques efetuados em civilizações e planetas que Calibor promoveu durante incontáveis eras.

O final desse imbróglio não poderia ser outro: o funeral Lavívi. As exéquias imperiais fúnebres deveriam ser executadas, mesmo a afra rainha Luna Dark e o vate Yendel não sendo casados formalmente. Pois a afra rainha Luna Dark, como uma imortal semideusa, e o vate Yendel, sendo um cyborgue nascido de uma explosão de supernova, também não poderiam morrer. Lançá-los ao astro-rei foi a solução — era assim o rito do funeral Lavívi, raramente utilizado.

A almirante Bartira, recém-promovida, teve essa incumbência, pois o funeral imperial Lavívi somente poderia ser executado por um almirante — um militar de alta patente consagrado nos campos de batalha. Mas Bartira teve outra ideia, estapafúrdia a princípio, porém, depois, sussurros heréticos aqui e ali — vozes veladas — davam conta de um mito esquecido há muito tempo: a união de máquinas e seres vivos. Não que isso fosse uma novidade, pois Yendel era um cyborgue. O desafio era unir os dois seres celestes, ambos detentores de poderes inimagináveis e quase ilimitados. E a almirante Bartira pesquisou a fundo e descobriu a existência de um rumor vago de que algo próximo disso já havia ocorrido — e as pesquisas apontavam para o palácio da memória do vate Yendel.

Ao adentrar na câmara ardente, feita de energia quântica, a almirante conecta-se ao cyborgue Yendel, que estava encapsulado na sala da proa do vaso de guerra, o Dirigível Mare Crisium. A almirante Bartira adentra a finitude do palácio das memórias do vate. Ela se multiplicou e se multiplicou e se multiplicou em um ciclo infinito. Pergaminhos digitais foram vasculhados, bancos de imagens foram assistidos, arquivos de áudio foram ouvidos e analisados. Hologramas foram projetados, antigos alfarrábios consultados e proibidos grimórios recitados. Sigilos místicos, há muito esquecidos, foram invocados; cânticos sagrados foram entoados; poemas foram bradados; e virtuais computadores quânticos foram ligados. E, por fim, a almirante encontrou o que procurava. A câmara ardente se desfez, e a almirante Bartira foi lançada ao chão, exausta. Na mente da militar surgiu um nome: o Protocolo Lavívi, por fim, fora encontrado.

Fragmento do livro: Sustentada no ar por negras asas fracas — texto de Clarisse Cristal, poetisa, contista, cronista, novelista e bibliotecária em Balneário Camboriú, Santa Catarina.   
Argumento de Samuel da Costa, poeta, contista e novelista em Itajaí, Santa Catarina.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Opera Mundi — nona parte: Epílogo — primeira parte

Drops literário, fragmento do livro: Sustentada no ar por negras asas fracas Arte digital, gerada por inteligência artificial. Créditos: Texto de Clarisse Cristal e direção de arte, arte final e redação de Samuel da Costa, poeta e contista em Itajaí, Santa Catarina.



 

''Incoerente, entreguei o meu coração...
A alguém que mal conhecia.
Fiquei entre a demência e a razão,
Oscilando o meu próprio inconsciente.''
Fabiane Braga Lima

 

A agora almirante Bartira olhava perdidamente para o vazio da álgida infinitude cósmica. Ela não via as torres de Carcosa atrás da lua, nem a estrela Aldebarã, nem as Híades pendendo do céu, e muito menos ouvia as sombras dos pensamentos de homens e mulheres que se alongam ao entardecer, nem os sóis gêmeos mergulhando no lago de Hali.

A almirante Bartira via e sentia uma estrela evanescer, mas o astro se negava a morrer e tendia a virar uma supernova em seu derradeiro fim. Pois o corpo celeste simplesmente se negava a se expandir e virar um astro morto. A estrela tinha ao lado uma anã branca e, em uma batalha contra a gravidade, os dois astros se fundiram e explodiram. O brilho astral percorreria a vastidão cósmica por eras infindas. Coisas que nem a distância astral, nem as poeiras cósmicas impediam a militar de alta patente de admirar e, por fim, encontrar uma saída para o dilema que a circundava: tornar permanente o que é efêmero, tornar estável o que por natureza é instável. O desafio estava lançado, e agora era encontrar para o problema gerado uma solução definitiva.

Um tanque-robô Aparai AS13 surgiu à frente da almirante. A máquina de combate, convertida em ajudante de ordens, chamou a atenção da militar de alta patente para a realidade urgente e premente. Lembrar do cerimonial, em que ela subiria de patente, marcado para dali a pouco pelo Conselho Supremo. Um simples protocolo a seguir, e a comandante de campo Bartira, por ora, daria cabo de todas as pendências antes de resolver o que de fato importava.

Bartira se multiplicou em um avatar, olhou para si e viu os longos cabelos, os olhos negros rasgados, penas de araras nas orelhas, o traje de combate negro de vinil. O avatar então foi até o supercomputador quântico para dar conta das muitas mensagens que não paravam de chegar. E o que chamou a atenção foi a mensagem da rainha Bastet, a deusa dos felinos. Depois de elogios e parabéns protocolares pela promoção de patente a ser oficializada, Bastet agradeceu pela viagem de seus súditos e informou que o documento final — a Constituição dos Felinos — já estava concluído. E, fora do protocolo, em um tom de censura, Bastet falou que a trituraria com as próprias garras se misturasse os seres humanos com os seus súditos felinos novamente. E o que se seguiu depois foram mensagens protocolares e amenas, vindas de todos os quadrantes do cosmo, dos multiversos.

A almirante Bartira se dividiu de novo e, concomitantemente, deixou outro avatar responder às mensagens protocolares enquanto ela ia até a ponte de comando. Foi conduzir o Dirigível Mare Crisium até um buraco de minhoca que se formou à frente. A belonave sobrevoava o deserto desolado da semideusa, a afra rainha Luna Dark, e a astronave adentrou a ponte arco-íris Byfrost. A almirante Bartira conduziria a astronave de combate a uma dimensão ignorada e pouco frequentada do cosmo.

A comandante se dividiu novamente e deixou para o seu avatar, na ponte de comando, a condução da belonave. A almirante Bartira bem poderia flanar até o seu camarote, mas preferiu caminhar até o seu aposento privado. Andou poucos metros pelo corredor central, subiu os lances de escadas e alcançou por fim o seu camarote pessoal.

E ali, no camarote pessoal, na tranquilidade da solitude, a militar de alta patente se trancou, fechando-se hermeticamente. Bartira pensou e fez circular entre os comandantes, alferes e seus subordinados menores uma ordem: não queria ser incomodada, fosse o que fosse, em hipótese alguma. A almirante Bartira fez desaparecer os poucos móveis que havia no lugar; não poderia se distrair com nada além de si. A militar de alta patente fez surgir à sua frente uma pequena câmara ardente, um cubículo de energia quântica, com um trono em seu interior, e, ao adentrar o recinto, fez a porta se fechar.

Uma vez dentro da câmara ardente, a almirante Bartira pensou na afra rainha Luna Dark e em como ela fora imprudente ao deixar o exílio perpétuo para procurar o ser cibernético, o vate Yendel, na Turris Ebúrnea. E como o bibliotecário-mor do deus imortal Calibor também fora imprudente ao deixar a terra dos sonhos para ir ao encontro da afra rainha Luna Dark no mundo em vigília. A almirante Bartira fechou-se em si e entrou em seu palácio da memória.

 

Fragmento do livro: Sustentada no ar por negras asas fracas, texto de Clarisse Cristal, poetisa, contista, cronista, novelista e bibliotecária em Balneário Camboriú, Santa Catarina.       
Argumento de Samuel da Costa, poeta, contista e novelista em Itajaí, Santa Catarina.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Adaptações imbecis que ninguém pediu

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Dosnossos múlti-plos silêncios 

Drops literário, fragmento do livro: Duetos poéticos sul-sudeste. Créditos: Arte digital gerada por inteligência artificial. Texto de Fabiane Braga Lima poetisa, cronista, contista e novelista em Rio Claro, São Paulo e texto direção de arte, arte final e redação de Samuel da Costa poeta, cronista, contista e novelista em Itajaí, Santa Catarina.


 

''És inspiração, luz e emoção!

Tens a leveza no olhar…

És menina solta,

Pronta para voar!''

Clarisse da Costa

 

Hoje silencio todos os meus versos e rimas

Minha alma pede paz

E necessita se distanciar

Das ardências, ânsias e fúrias

Calo-me, pois preciso do silêncio

***

Tens a realidade liquefeita

Como soberana tirana tua?

Então não se cale e esbraveje

Crie sintéticas asas e voe

Para o além da realidade fluída

Para muito além dos astros-mortos

***

Inquieta escrevo e descarrego

Tenho a sensação terrível do medo

Consome, me toma como refém...

Sem direção e infindas incertezas.

***

Escreva apaixonadamente

Ebúrnea sacrossanta poetisa 

Que repousa em tranquilas águas

Em um límpido rio claro 

Componha uma nova realidade

Que não seja então somente tua 

Que seja mim também

***

Maldita inquietude que m'domina

Minha mente parece encarcerada

Sinto-me prisioneira, de mãos atadas.

***

És bem quista

E benfazeja nos versos meus 

Tu és absoluta

 Nas vastidões infinitas

 Dos negros estros meus

Flutuas e flanas vívida na verve

Que componho

 Com negras tintas digitais 

Em páginas em branco

***

Aquieto-me, pois o mundo grita

Chora de dor... maldição, ganância...

Esperança, loucura ou solução!?….

 

Duetos poéticos Sul-Sudeste de Fabiane Braga Lima, poetisa em Rio Claro, São Paulo e Samuel da Costa, poeta em Itajaí, Santa Catarina. 

Ópera Mundi — décima parte: Epílogo — segunda parte

Drops literário, fragmento do livro: Sustentada no ar por negras asas fracas Arte digital, gerada por inteligência artificial. Créditos: T...