E o mundo (ainda) não acabouNem todas as águas são cor de afogamento. Depois das eleições; o que somos e para onde vamos?
Bom dia, assinante e colaborador do RelevO, impresso mensal de literatura com o costume de ter ideias para diversificar as formas de prejuízo. Na circular de hoje, trazemos um recado, ressoando como a primeira respiração depois de uma crise de apneia. 1.De tempos em tempos, e agora em intervalos cada vez mais curtos, o mundo parece empenhado em repetir seus piores capítulos. Mudam os sorrisos das múmias, as caricaturas grotescas, os animais raivosos, as bandeiras e as camisetas, os meios de disseminação de informação e até os inimigos imaginários, mas certas ideias continuam encontrando maneiras de voltar ao púlpito, como se estivéssemos diante de ventríloquos históricos. O autoritarismo troca de roupa, a escória soa como arauto, a intolerância aprende novas palavras e a mentira descobre tecnologias mais eficientes para se apresentar como verdade, um conceito tão, tão… relativizado que chega a dificultar a vida dos escritores de sci-fi. Se observarmos com algum distanciamento, as ameaças à democracia não surgem necessariamente de grandes rupturas: muitas vezes, começam com pequenas concessões, com o desprezo pela identidade do outro, com a naturalização da violência e com a ideia de que alguns direitos são negociáveis. O mais desconcertante é perceber que a humanidade, apesar de toda a experiência acumulada, continua muito bem-disposta a cometer erros que já deveriam ter saído de catálogo — e nossa memória sofre até para assimilar eventos recentes.¹ Seria confortável acreditar que atravessamos um período excepcional e que, passada a turbulência do período eleitoral recente, tudo voltará ao seu devido lugar. Mas a história não funciona assim. Forças obscuras sempre encontrarão oportunidades para reaparecer, especialmente em sociedades marcadas pela desigualdade, pelo medo e pela dificuldade de conviver com as diferenças. É o caso do Brasil ou de qualquer democracia vigiada pelo capital especulativo e por forças extrativistas. A democracia, afinal, não é uma conquista que se guarda numa gaveta depois de alcançada. É um exercício cotidiano, frequentemente cansativo, que exige participação, vigilância e disposição para o diálogo (em tempos de gritaria). Um dos maiores equívocos do nosso tempo é justamente imaginar que a defesa de uma sociedade democrática cabe exclusivamente às instituições, aos políticos ou aos resultados das urnas. A literatura continua, de algum modo, contando e atravessando a vida e o tempo. Escrever não deixa de ser uma maneira de contar o mundo, mas também de interrogá-lo, contradizê-lo e imaginar aquilo que ainda não existe. Um poema não derruba um governo, um conto não revoga uma lei injusta e um romance dificilmente convence um bruto a abandonar suas convicções depois de três capítulos (até porque o bruto dispensa romances). Ainda assim, a literatura preserva experiências, amplia perspectivas e impede que uma única versão da realidade se imponha como definitiva. Não é incomum perceber que governos autoritários ajam tanto na direção da supressão de determinados conteúdos literários como se estes fossem fantasmas escondidos no banheiro. Isso de ler parece perigoso, e não à toa vivemos em um período de desestímulo aos hábitos que possam ocasionar pensamento um pouco mais elaborado. Como dizia Emil Cioran, “mais que um erro de fundo, a vida é uma falta de gosto que nem a morte, nem mesmo a poesia, conseguem corrigir”. O RelevO, cujo programa principal é respirar, depois pensar, depois rir do que pensamos, existe dentro de uma convicção que envolve a liberdade de expressão, a pluralidade de ideias e a literatura como estratégia de enfrentamento ao pensamento homogêneo. Há mais de 16 anos, publicamos literatura em papel, apostando em uma atividade que, segundo os diagnósticos mais pessimistas, já deveria ter desaparecido algumas vezes. Seguimos circulando por cidades brasileiras, reunindo autores, leitores, colaboradores e pessoas que acreditam que a produção literária merece espaço fora dos grandes circuitos comerciais. Não pretendemos salvar a literatura brasileira, tampouco oferecer respostas para os grandes impasses da civilização. Nosso trabalho é muito mais modesto e, justamente por isso, bastante concreto: fazer com que textos encontrem leitores, que escritores encontrem espaço e que diferentes maneiras de compreender a vida possam coexistir nas mesmas páginas. Nada disso acontece isoladamente. Um jornal independente é, antes de qualquer coisa, uma construção coletiva. Depende de quem escreve, de quem lê, de quem compartilha, de quem assina, de quem anuncia e de quem compreende que a continuidade de um projeto cultural não é responsabilidade exclusiva de seus realizadores. Comunidades não se sustentam apenas por afinidades: precisam de vínculos, envolvimento e ações mensuráveis, como assinar, anunciar, divulgar. Temos prestação de contas como compromisso com a transparência e como forma de traduzir nossas ações, dificuldades e limitações em algo tangível. Não gostamos de parecer vítimas, mas acreditamos que a transparência também seja uma forma de fortalecer os vínculos com quem nos acompanha. Não sabemos quais serão os próximos capítulos da política brasileira, nem quantas vezes ainda precisaremos enfrentar velhos fantasmas apresentados como novidades. Por ora, estamos aliviados. Consideramos o RelevO, este romântico abatido até o cinismo, um veículo progressista, alinhado às ideias que promovam liberdade cultural, direitos humanos, diversidade e democracia. Ou seja, um conjunto de valores desgastados por discussões que geralmente atuam na direção da redução de seus lastros e efeitos. Sabemos, enfim, que nenhuma sociedade se torna mais democrática quando seus cidadãos desistem de pensar, criar ou participar. O mundo continuará produzindo suas contradições, e alguém sempre tentará transformá-las em medo, silêncio e obediência. De nossa parte, continuaremos publicando porque acreditamos que uma sociedade também se define pelas histórias que permite contar. Essa continuidade não depende apenas da nossa vontade. Um jornal independente precisa de independência editorial, mas também de dinheiro para pagar suas contas, imprimir suas páginas e remunerar quem trabalha para que elas existam. Financiar o RelevO, seja por meio de assinaturas, anúncios ou contribuições, é garantir que a literatura continue encontrando espaço em um mundo que insiste em reduzi-la a uma atividade dispensável ou que preenche os espaços de apreciação artística com rodas de rato viciantes. Enquanto houver uma comunidade disposta a financiar o nosso jeito de estar no mundo, seguiremos por aqui. E… Ufa!
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Nunca subestimar a incapacidade humana de aprender com as próprias ruínas.
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quarta-feira, 28 de outubro de 2026
E o mundo (ainda) não acabou
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