Das diversas de dar errado para, quem sabe, dar certo — ou engrenagens da cultura a partir de um jornal de papel e de literaturaColaboradores; [falta de] dinheiro; pausa logística para um café.
Bom dia, assinante e colaborador do RelevO, impresso mensal de literatura com o costume de ter ideias para diversificar as formas de prejuízo. Na circular de hoje, trazemos três recados, simples como emprestar dinheiro da própria maquininha de cartão. 1.Entre dias de chuva, vento e frio em Curitiba, lançamos um filme! Na última quinta-feira (17), tivemos a estreia do nosso primeiro curta-metragem, Colaboradores, na Macro, em Curitiba. Foi... um sucesso? Tivemos público, entre 150 e 200 pessoas (!), com amigos, familiares, envolvidos na produção do filme, devedores ameaçados, assinantes do RelevO e curiosos. Isso em uma quinta-feira à noite, com 12°C, amenizados pela música dos DJs da Voodoo e pelos ótimos coquetéis da casa. Por volta das 21h, depois de discursarmos para agradecer aos patrocinadores e envolvidos (e não deixar que eles se escondessem na multidão, sendo publicamente responsabilizados pelo que todos logo viriam a assistir), subimos alguns lances de escada e fizemos a projeção do filme, um tanto amedrontados com a possibilidade real de ser tudo um grande desastre (vide texto passado). Foi uma sensação similar à de uma caminhada para cobrar um pênalti numa disputa eliminatória.
/socada/, a sala comportou muita gente em pé atrás das cadeiras – e nas laterais (Fotos: @trevisan4pic e Lorenza Ribeirete).
Sobrevivemos. Não sem atravessar todos os estágios do risco (coração na mão, pele em jogo, c* na reta). Houve risadas — a cada uma, um grande, grande alívio. A gradual sensação do público absorvendo os personagens e a narrativa. “Sucesso” é difícil de medir, até porque ninguém diria “ficou uma bosta” na nossa frente. Estamos cientes disso. Mas nem nosso pessimismo mais amargo defenderia que o filme e o evento não funcionaram. Funcionou. Não foi constrangedor. Não foram 28 minutos de silêncio. Não houve um compilado de sorrisos amarelos. Passada a adrenalina, nos demos conta da improbabilidade de fazer uma comédia funcionar em tal contexto. Por exemplo, qualquer falha no som (seja técnica — de nossa parte —, seja do contexto [equipamento, local, pessoas ao redor] da apresentação) pode atrapalhar compreensão e ritmo, e qualquer ruído é capaz de matar qualquer piada. Até porque não exibimos o filme em um cinema de fato. Apesar do ótimo espaço, há uma diferença intrínseca. Por fim, o filme ainda requer alguns ajustes e correções — o que talvez o espectador médio não consiga perceber (ou consiga?), mas para nós são gritantes. Ou seja, funcionou a despeito de tudo isso. Ademais, não estamos sequer considerando um possível sucesso financeiro. Tivemos custos (produção) e continuamos a tê-los (eventos) — não vemos muita margem para lucrar com o filme, ao menos não por ora. Porque daqui alguns meses, naturally, a HBO vai oferecer uma nota para adaptar Colaboradores como série. Em linhas gerais, Colaboradores é uma comédia corporativa. O curta acompanha o drama de três colegas de RH prestes a encerrar o expediente de sexta-feira. Como tudo o que envolve humor, trata-se de algum nicho. Enxergamos a premissa como um drama de classe média, que dialoga com qualquer pessoa (posicionada entre a miséria e o herdeiro) que precisa trabalhar — e vive as contradições das relações trabalhistas. Não somos herdeiros (infelizmente), não vivemos na miséria (felizmente) e também precisamos vender nosso trabalho diariamente. Produzir um filme sempre foi um sonho do RelevO, que acredita que o cinema é uma das grandes formas de contar uma história. PORÉM, assim como o jornal de papel custa, o custo-cinema não é baixo. Investimos nesse evento – gratuito – e nos próximos. O que, para um caixa já solapado pelas intempéries de setembro, nos deixa em uma situação ainda mais lamentável. Temos mais duas exibições confirmadas. Uma em 17 de outubro, no Espaço SFC, mantido pelo extraordinário Royalty Café (e você lê em primeira mão aqui!); outra em 17 de novembro, na Cinemateca de Curitiba (!). Comunicaremos devidamente cada uma pra constrangê-los a prestigiar. Em 20 de novembro, depois de esgotarmos todo o nosso ciclo de amigos e apoiadores, faremos a última exibição — uma pitoresca “sessão da madrugada” no Mad Jack Bar. Depois, pretendemos cometer harakiri, não sem antes queimar nossas camisetas de banda (e organizar uma sessão secreta numa TV de tubo do Bar do Pedro Lauro, onde o filme poderá enfim descansar). Só então ele conhecerá seu habitat, isto é, a internet. 2.É preciso ter paciência com os projetos culturais independentes¹. O RelevO está sem dinheiro, o que não é notícia nem surpresa para ninguém. O ciclo de existência de um impresso mensal de literatura não difere muito da infraestrutura de outras iniciativas de literatura que, de algum modo, estão nadando contra a maré, fora das ondas sazonais de remuneração ou destituídas de sobrenomes aristocráticos. O RelevO não faz dancinhas, embora agora tenha um TikTok (!). Basicamente, vivemos mês a mês, com pouca margem de erro ou capital de giro. Nunca tivemos fins lucrativos (porque nunca conseguimos) e sempre apresentamos nosso balanço financeiro na página 3 do impresso. O prejuízo geralmente oscila entre R$ 100 e R$ 500 ao mês, que acabam absorvidos por trabalhos extras do editor calveludo. Contudo, pequenos movimentos inesperados de entrada ou saída de caixa são suficientes para que o nosso coração financeiro ameace colapsar e entremos no conhecido modo pedinte-cultural. De fato, o RelevO está em uma fase financeiramente delicada. Entre agosto e setembro, as nossas entradas financeiras diminuíram em mais de 50% em relação ao mesmo período de 2025, e justamente na base que mais nos desestabiliza: os assinantes. Os números podem ser mais esclarecedores: para pagar os custos mensais, precisamos de aproximadamente 100 assinantes por mês. Hoje, 24 de setembro, quatro dias antes do prazo previsto de envio para a gráfica, estamos… distantes do valor necessário. Naturalmente, são muitas as possíveis justificativas para a nossa queda de faturamento, das mais abrangentes (como aumento dos custos de vida/inflação, e aí os itens culturais são os primeiros a evaporar) até, quem sabe, um certo esgotamento da nossa base com o nosso projeto ou o fato de que, ao produzirmos outras coisas, aparentamos estar bem, isto é, estabelecidos. Pedir apoio, sabemos, também cansa quem lê e, principalmente, quem ajuda. Não nos assina? Cogite assinar o RelevO. Acredite no nosso projeto. Não porque sejamos indispensáveis — nenhum jornal é —, mas porque algumas coisas só continuam existindo porque uma comunidade investe e entende que vale a pena mantê-las vivas. Há 16 anos, todos os meses, fazemos esse jornal chegar às mãos de leitores, escritores, livreiros, estudantes e pessoas que nunca conheceremos. Cada edição que vai para a gráfica é, de algum modo, uma pequena vitória contra o desaparecimento. Se o RelevO ainda existe, não é porque aprendemos a sobreviver sozinhos. É justamente o contrário: existimos porque, ao longo desses anos, muita gente resolveu existir conosco. Neste mês, mais uma vez, precisamos de você. 3.E ainda tem os Correios... Sofremos intempéries na logística do mês, com algumas reclamações sobretudo em São Paulo e Rio de Janeiro, o que não nos surpreende. As encomendas do café do Jornal também demoraram um pouco mais para chegar. Até o momento, porém, nenhum produto foi extraviado (ou bebido). Aliás, quer o café do RelevO? Falamos mais sobre essa beleza aqui. Fizemos um discreto lançamento no último dia 17 e ainda estamos aceitando encomendas. And so it goes. E la nave va. Café. Alguma coisa assim.
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‘É preciso discutir’ (Noel Rosa); ‘É preciso perdoar’ (Alcyvando Luz/Carlos Coqueijo); ‘É preciso dar um jeito, meu amigo’ (Erasmo Carlos/Roberto Carlos); ‘É preciso saber viver’ (idem); ‘É preciso dizer adeus’ (Tom Jobim/Vinicius de Moraes); ‘É preciso’ (Gonzaguinha). É preciso amor pra poder pulsar; É preciso paz pra poder sorrir; É preciso a chuva para florir…
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quinta-feira, 24 de setembro de 2026
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