Nesta newsletter, resgatamos textos publicados no Jornal RelevO e já devidamente esquecidos. Dessa vez, trazemos algo mais intrigante: a procura frustrante por um personagem perdido… Em busca de Amyr Click
Jornal RelevO, outubro de 2021.
Semana passada, Tamara Klink causou um alvoroço entre brasileiros que acompanham… livros, editoras, mercado editorial e afins. Um nicho de instituições menos sólidas que o jogo do bicho e o tigrinho, ao qual de certa forma pertencemos (isto é, ao nicho, não ao tigrinho – ainda. Se a gente pertencesse mais ao nicho, talvez soubesse contornar esse tipo de ambiguidade). Isso logo acendeu um alerta no grupo do Jornal RelevO. Ali teríamos uma oportunidade. Mais uma vez, poderíamos usar a vida real para resgatar uma piada antiga do Jornal. Afinal, logo nos lembramos do personagem “Amyr Click”, um navegador que deu a volta na internet inteira. Alguma coisa assim. Não era nossa melhor piada, nem nosso melhor personagem, mas – logo viríamos a descobrir – talvez seja nosso maior mistério… Sempre que queremos ou precisamos resgatar algum texto antigo, recorremos à nossa planilha mágica, onde temos catalogado tudo que foi produzido por nós mesmos e chegou até as páginas do impresso. Aqui uma amostra da coluna de palavras-chave, ano 2019: Pois bem, navegamos atrás de Amyr Click – e até o encontramos. O problema: Amyr está devidamente catalogado em outubro de 2021, nas páginas centrais “Seis personagens à procura de outro jornal”, em que, justamente, resgatamos personagens que – supostamente – já haviam aparecido no RelevO. Junto dele estão Celsinho Kaizen, empreendedor místico; Karina Falafel, candidata em defesa do shawarma; Hilário Mancada, humorista estritamente profissional (“odeio humor, odeio meu nome, odeio meus pais”); Academia Pôncio Pilates (“daqui você sai pregado”) e do poeta Ferreira Gulag¹. Faltava, portanto, encontrar a aparição original de Amyr Click, da qual nos lembramos concretamente. Assim, retornei à planilha. O nome não estava lá. Procurei outras palavras-chave, termos semelhantes. Faz parte do processo; são muitas edições; estamos acostumados. Lembrando que, todo mês, resgatamos algum texto antigo pra esta seção do Substack. Lembrando também que não fizemos isso nos últimos quatro meses. Pois bem, a procura ganhou ares de investigação na sexta-feira. O grupo de comunicação do RelevO enxergava sinal amarelo. Todos já vestíamos trench coat e falávamos em jargões americanos dos anos 1950. A chuva entrecortava o olhar seco da noite, alguma coisa assim. Procurei dezenas de edições, um Percy Fawcett – digital, como o Amy… Click… – delirando sobre uma cidade lendária enquanto desmaia no sol de Mato Grosso. A busca evoluiu para um processo. Duas mãos se tornaram quatro, seis, oito. Fui dormir derrotado. No sábado, uma mensagem surpreendente: um agente do RelevO havia feito uma surpreendente auditoria. Todas as edições mais a Enclave. Site, Issuu (onde o Jornal era hospedado nos bons tempos de internet), Wayback Machine. O que Giovanni descobriu foi arrasador: um link quebrado no nosso arquivo; uma edição trocada; nove gramas de pappardelle não cozinhado embaixo da pia da cozinha; uma dívida com a Oi Móvel em 2011. Mas nada sobre Amyr Click. Nada. Não existe nenhum traço de Amyr Click em nenhuma esfera do RelevO. Ele pode ter circum-navegado até um vórtice; pode ter sido digitalmente afogado; pode nunca ter existido. Mas qual seria a lógica de resgatá-lo em 2021 se não houvesse um texto anterior? Ademais, e nossas memórias? Eu lembro de Amyr Click. Não posso confiar mais na minha memória? Somos todos replicantes à espera de um teste? [Você se abaixa e vira a tartaruga de costas. A tartaruga fica de costas, com a barriga assando no sol quente, batendo as pernas tentando se desvirar, mas não consegue, não sem a sua ajuda. Mas você não está ajudando.] WHAT DO YOU MEAN I’M NOT HELPING?! Basicamente, sim (para alguma dessas perguntas). Trata-se de um engano, um delírio, uma mistura de erro de memória com erro de interpretação. Afinal – concluímos –, nem todos aqueles personagens foram necessariamente resgatados. O próprio Celsinho Kaizen só viria a ser “desenvolvido” (termo bastante gentil) posteriormente. Com vocês, portanto, mergulhado na nossa vergonha, uma amostra de Amyr Click. Não leiam; não comprem livros; não assinem o RelevO.
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“Ahhhhh, a poesiaaaa.... o ser profético.... a metafísica da incompletude me goza me torna me completa a tarefa do mecanicismo latenta, pujante, da gente que louva num canto arfante como nossa poesia merece a MORTE, A MORTE mercante!”, teria recitado o autor.
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segunda-feira, 17 de agosto de 2026
Em busca de Amyr Click
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