EDITORIALBom dia! Bem-vindo(a) à Enclave #138, a newsletter com saudades da primeira fase da Copa do Mundo. Hoje tratamos de um disco muito querido para o editor. Antes disso, um recado aos amigos de São Paulo e adjacências:
HIPERTEXTOEste calor nuclearHomens, eu vos amei. Vigiai! — Julius Fucik Lembro exatamente onde eu estava na primeira vez que ouvi Deceit (1981), de This Heat (…). Lembro exatamente como me senti — e, mais estranho, lembro exatamente a descrição de como me senti. Como se tivesse anotado e relido, mas sem tê-lo feito. Talvez porque o álbum tenha imediatamente me chocado à sua maneira, e eu logo tratei de me esforçar para por em palavras aquele primeiro contato. Era 2013 ou 2014, acredito eu. Estava em casa (à época, a dos meus pais), mais precisamente na sala (incomum). Usava um laptop, um vermelho (com adesivo do Defenestrando – bons tempos!). Era noite. Dispunha de fones de ouvido. Motivado pela leitura de Rip It Up and Start Again (2005), de Simon Reynolds, apaguei as luzes (incomum também) e dei play. Foi o mais próximo que senti de medo ao escutar um disco. Aquele horror cósmico, sensação de desamparo existencial. Mas não o de um monstro lovecraftiano, e sim algo mais… humano? A sensação – e a descrição (lamento pela limitação das minhas ferramentas) – era a de cruzar uma ponte no breu, sem saber o que havia em frente e embaixo. Era isso. Um breu absoluto, uma ponte, eu atravessando sozinho. Deceit me formou essa imagem, e eu nunca tinha enxergado algo similar, que dirá com um disco. Também não me lembro de atravessar uma ponte à noite, no breu, muito menos sem saber o que havia em frente; muito menos sem saber o que havia embaixo. Enfim, a arte. E Deceit é arte de altíssimo nível. Engenhosidade pura, a aplicação de um conceito vivo a despeito de qualquer limitação técnica/estrutural. O famoso “tem verdade”. O álbum me marcou mais que outros tantos que me agradam mais; que ouço ou ouvi muito mais. Deceit foi um marco e nunca deixou de sê-lo; uma espécie de assombração para a qual retorno esporadicamente. Não é o resultado mais melódico, nem o mais lírico, nem o mais produzido, nem o mais texturizado¹. A capa ilustra esse terror maravilhosamente. E que terror afinal movia o calor? This Heat era um trio composto de três multi-instrumentistas, mas, principalmente, três almas criativas. Do que me lembro (e posso estar enganado), Gareth Williams (baixo/voz) era a lomocotiva conceitual do grupo. Um texto de The Quietus (sobre Flaming Tunes, o outro projeto de Williams) reforça a ideia:
O primeiro disco do grupo (autointitulado, 1979) é abstrato. Excessivamente abstrato para meu paladar — aquilo que às vezes chamam (não eu!) de “interessante” ou, pior ainda, “necessário”, mas que podemos fechar em “experimental”. Há ótimas ideias, recursos interessantes (rá!); tem dor, inventividade, engenhosidade (principalmente ‘24 Track Loop’, essa pedrada aqui, a mais marcante²). Deceit, o segundo, não é exatamente palatável, mas, digamos, consegue se comunicar um pouco mais com ambientes alheios a jovens efervescentes tentando quebrar a música. Gravado num frigorífico desativado, é um produto do pós-punk e, principalmente, da Guerra Fria³ elevado ao volume 11 (up to eleven). Conta-se – isto é, os próprios integrantes relataram – que eles estavam aterrorizados com a possibilidade de uma guerra nuclear. A questão é que o disco consegue traduzir isso. Portanto, trata-se de um álbum altamente político, mas não tipicamente político. Temáticas políticas podem se centrar muito em letras (às vezes, inclusive, utilizando sua inambiguidade como muleta) e/ou então criar qualquer coisa do ponto de vista técnico (o que tudo bem, afinal *posicionamento*). Não é o caso de This Heat/Deceit, lançado pela Rough Trade Records, que soa como o apocalipse nuclear. A Waste Land de T. S. Eliot⁴; um Cântico para Leibowitz; o deserto de Mad Max; Fallout. O horror (o horror, o horror) de Conrad. Quarenta e cinco anos depois, afinal, há motivos para este coração das trevas permanecer tão aterrorizante quanto atual (…outro adjetivo maldito). Tão atemporal. Deceit ainda tem o som do futuro. Analógico, fragmentado, caótico. O ruído estático numa sinfonia de detritos. E este calor começa com a hipnose de ‘Sleep’, seguido pelo pesadelo brilhante de ‘Paper Hats’. Você pode ouvir Deceit aqui mesmo (ou, se preferir, no Spotify):
Talvez você também sentirá o horror, o medo e a travessia no escuro. Talvez você se lembrará – ou já se lembre – da primeira vez em que escutou Deceit. Talvez nós todos explodamos em breve (não com um suspiro, mas com uma explosão mesmo), e a obra de This Heat terá apenas reforçado como somos realmente muito ocos.
BAÚO Que Diz A Morte
Antero de Quental, 1885.
1
Texturizado? O que isso quer dizer? Não sei; Kraftwerk é melódico e texturizado. E produzido, claro; Jobim também. Este autor se esforçou bastante para não pensar e, consequentemente, conseguir publicar.
2
“A peça central do álbum de estreia do This Heat, ‘24 Track Loop’, é uma faixa pioneira no uso de loops de fita para formar a base de uma música, utilizando essencialmente fita analógica de duas polegadas como um dispositivo de amostragem primitivo. A atmosfera sombria e gélida da faixa a coloca na mesma categoria dos artistas pós-punk e industriais da época, mas há também algo de muito estranho nela. É quase como uma abordagem pós-punk do Miles Davis da era dos anos 70, que também usava loops de fita e métodos de recortar e colar para reconstruir novos grooves. Tudo o que se precisava saber sobre os métodos estranhos e não convencionais usados pelo This Heat podia ser encontrado em ‘24 Track Loop’, uma faixa que é tanto uma curiosidade quanto uma revelação. No entanto, é também a peça musical mais acessível do álbum de estreia autointitulado do grupo, lançado em 1979, que justapunha canções totalmente estruturadas com longos períodos de improvisação.” — Treble, 2016.
3
Não confundir com “Guerra Frita: a balada que uniu o mundo”.
4
Eliot apresenta a ‘Morte pela água’, seção mais curta de seu poema. This Heat nos oferece ‘A new kind of water’ (Um novo tipo de água), já um “bubble bath rain” (chuva de banho de espuma/ácida) e um “acrid stench” (odor acre), cconsequência do progresso material cego.
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quarta-feira, 15 de julho de 2026
Este calor nuclear
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