Keep karma: BudZazen, a cerveja budista de Celsinho Kaizen"Porque Budweiser já tem", refletiu o criador, abatido.
Nesta newsletter, resgatamos textos publicados no Jornal RelevO e já devidamente esquecidos. Dessa vez, trazemos algo mais recente: as centrais da edição de abril de 2022. Celsinho Kaizen, criador da primeira cerveja budista do BrasilNão foi sem algum espanto que Celso Alexandre Nogueira acordou de madrugada, ligeiramente suado, desperto por um sonho que ele mesmo viria a considerar genial. O sonho? Criar a primeira cerveja budista do Brasil. A ideia surgiu na forma de um rótulo imenso, branco como nuvem, espumando na ponta, uma mistura conceitual entre uma cerveja mediana e uma base da prática oriental, tudo sob os ombros de um gigante de vidro e um letreiro de neón centralizado. Estava criada a BudZazen: — Porque Budweiser já tem —, refletiu o criador, abatido. Era, enfim, a Iluminação. “Quando era mais jovem, cheguei a atingir o Nirvana, mas sou mais um Pearl Jam”, ele ri, desacompanhado. “A ideia de criar a primeira cerveja budista já estava em meu inconsciente”, reforça Celsinho. “Eu apenas deixei fluir com o que flui no mundo, aí minhas antenas receptivas trouxeram até mim aquilo que lancei como bom”. No tempo histórico normal, Celsinho teve a ideia de uma cerveja zen em 2018, depois de se recuperar da Covid-19 — “meu espírito se antecipou e capturou a Covid já em 2018”. Sua conversão começou “com uns podcasts daora” e terminou “com mais alguns podcasts maneiros”. Celsinho KaiZen, que hoje poderia ser um dos mais bem-sucedidos empreendedores do Brasil decolonial, quiçá fundador e principal acionista de uma rede de cervejas artesanais – cujo centro conceitual seria o desapego ao eu-menor e o apego ao copo-maior –, defendeu que a BudZaZen encontrou no caminho da manguaça e da meditação a chave para uma vida equilibrada. Uma cerveja pró-presença absoluta. “Nosso slogan é keep karma! Criativo, né? Curto essas vibe, zero espaço pra negatividade no meu dia”. O início da jornada espiritual e etílica de Celsinho teve momentos de muita dificuldade. A partir de diversas análises de mercado no Tinder e da opinião final de seu vizinho chapado, Celsinho chegou a uma cerveja que não era aguada, mas também não era amarga, nem forte, nem fraca. “Uma cerveja como o Caminho do Meio – chavosa, segundo os podcasts”. Em setembro de 2020, ele foi atrás de uma comunidade budista de Curitiba para buscar conselhos de marketing e financiamento, mas acabou alvejado por “um monge careca e vestindo uma roupa estranha”, que teria declarado “aqui ninguém tem sangue de barata”. Na época, o Monge Genshô, reconhecido mestre budista que estava de visita em Curitiba, teria perdido o estado de contemplação diante do abuso interpretativo das Escrituras por parte de Celsinho KaiZen – ele teria até sugerido um B.O. por estelionato e, em última instância, “para tentar tirar esse picareta das ruas”. Após visitas de relativo sucesso a 36 estabelecimentos comerciais, incluindo paleterias e museus vivos de frozen yogurt, Celsinho decidiu que era o momento de expandir a rejeição: foi a um cassino em busca de sorte e financiamento. Passadas três rodadas de pôquer, o que restava mal compraria dez quilos de malte. “Preciso sair dessa cidade tóxica”, pensou, após “rezar pra Buda ou algo assim”. Com seus últimos R$ 72, ele comprou uma passagem só de ida para São Paulo. “O curitibano é muito down”, refletiu. Em São Paulo, ainda na rodoviária do Tietê – mais especificamente no Lotus Coffee & Morning Routine –, Celso conheceu Luana Mintto, deixando-se levar pelo cabelo hidratado, pela derme bronzeada e pelo sotaque levemente carioca da moça. Mintto, que já havia tentado se eleger vereadora em Jundiaí (SP) com o slogan “Exagero, mas não Mintto” – eleito o pior slogan eleitoral da campanha de 2020 pela página de Instagram “ClubeDaUvaJundiai” (4 mil seguidores) –, trocou ideias de negócios com Celsinho. Acontece que Luana Mintto também já havia sido condenada por comandar um esquema de pirâmide, motivo pelo qual deixou (mas, antes disso, conquistou) o Rio de Janeiro. “Era marketing de rede, a Polícia tirou conclusões erradas”, logo defenderia Celsinho, inebriado pela chance de multiplicar seus futuros investimentos – e por aquele cabelo hidratado. Uma reunião, um pitch, um briefing: Celsinho só precisava levar a BudZaZen ao círculo de amigos e investidores de Luana, que àquela altura já podia ser chamada de Lu. No coworking, ela entrou com a sala; ele, com o cérebro. “Meu, isso dá unicórnio”, comentou um dos envolvidos, tido como investidor-anjo, embora – como Celso viria a descobrir com trágico atraso – o sujeito alimentasse uma dívida diabólica em seu CPF (e em 40 de seus 42 CNPJs). Ali mesmo, com seu pequeno caderno à mão, Celso concordou em fazer parte de “uma rede de financiamento cripto metaverso dinheiro etc.”, entrando apenas com um investimento inicial – “o apartamento que minha avó me deixou não é nada perto do potencial da BudZazen” – e algumas assinaturas. Sem saber, mas sorrindo muito, ele assumiria 40 CNPJs e a responsabilidade legal absoluta pelo esquema de fraudes “Gran Ruby”, pelo qual seria preso duas semanas depois. Estupefato, ele quase beijaria Luana – “agora não, vamos celebrar mais tarde” – e esqueceria seus pertences no ambiente. Luana Mintto não o veria nunca mais, embora tivesse marcado um happy hour no bar Cringe Rooftop. “Deve ter se perdido…”, pensaria Celsinho, sem entender como suas mensagens de celular não mais chegavam até ela, tampouco suas ligações. No chão do coworking, o diário de Celsinho – inconfundível Tilibra 2003, capa dura com um surfista em ação – repousa perdido. Curioso, um braço em terno de lã se estende para alcançá-lo. Charles Zaccardo se encanta com o que vê. Um mês depois, está pronta a BudZazen. Enquanto isso, Celso Nogueira aprende sobre privação e meditação na Casa de Custódia de São José dos Pinhais (PR).
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quarta-feira, 8 de abril de 2026
Keep karma: BudZazen, a cerveja budista de Celsinho Kaizen
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