Nesta newsletter, resgatamos textos publicados no Jornal RelevO e já devidamente esquecidos. Dessa vez, trazemos algo mais recente: as centrais da edição de janeiro de 2026. Adaptações imbecis que ninguém pediuÉ época de inovação! Aproveitando que hoje tudo é remix, remaster ou reboot e, em breve, (1) todas as grandes produtoras serão algum braço porco da Netflix; (2) ninguém mais sabe como fazer dinheiro no audiovisual, afinal Netflix; (3) tudo será o AI slop mais barato e emburrecido possível (tipo série da Netflix), sugerimos aqui algumas ideias, ou melhor, pitches valiosos para alguma produtora (de preferência a Netflix) levar a sério. Contratualmente, claro; não esteticamente (ui!): a ideia ainda é ser nada mais que uma ótima segunda tela, tentando não assustar muito os animais de estimação. Com vocês, as melhores adaptações que ninguém pediu! ![]() Jornal RelevO, edição de janeiro de 2026. Diagramação: Bolívar Escobar (como não amá-lo?) Jake Paul vs. 500 nóias de FentanilPara celebrar a verdadeira ‘Murica, terra de winners e carros grandões, Jake Paul enfrentará seu maior adversário nas artes marciais: 500 true Americans completamente incapacitados pelos melhores opióides que o mercado entrega! Quantos nóias conseguem atingi-lo? Quantos conseguem chegar até ele? São todos entorpecidos ou alguns conseguem lutar com raiva? Acompanhe este evento ao vivo, batizado preliminarmente de Guerra do Fentanil, que renderá mais de US$ 100 milhões a Jake Paul, orçamento que por si só não cobre os custos de transporte e consulta dos 500 nóias em L.A. Estes serão devidamente reaproveitados pela CIA, em nome da segurança nacional. Sítio do Picapau Amarelo: uma adaptação Funko PopSe as adaptações Lego vingaram, por que não as Funko Pop? Bom, antes de mais nada, porque Funko Pop é uma maldição cafona. Por isso mesmo, seu potencial é ilimitado! Nesta adaptação nacionalíssima, mas com investidores europeus (bem clarinhos, aprovados pelo autor…), todo o sítio vira um desfile de cabeças desproporcionais e olhos mortos. Emília surge com o sorriso fixo de quem sabe demais e não vai contar nada, Narizinho perde seu nariz e Visconde de Sabugosa é pasteurizado a ponto de nem parecer mais um velho esquisito. A castração maior acontece com o pobre Saci, cada vez menos travesso. Ironicamente, ele perde toda a subversão ao virar um produto perfeitamente empilhável – e com alerta antifumo! Tia Nastácia não teve nenhuma repaginação, uma tentativa de reerguer a banda Tianastácia, pois o roteirista (versão gratuita do Claude, com incrível limite de uso) confundiu as coisas. É o Sítio do Picapau Amarelo reimaginado como ele sempre temeu: não um espaço entre o freak e o desconfortável, mas o absoluto colecionismo compulsivo, perfeito para fumar um vape com as crianças 30+. Sherlock Holmes & o excesso de liberdadeDomínio público é ótimo, a gente adora. Mas que tal deixar esse velho autista descansar um pouco? Já não enfiamos o britânico mais cheirado do mundo pré-Keith Richards em todos (todos) os cenários possíveis? Não! Nessa nova adaptação com roteiro “tipo” Charlie Kaufman (mas com tudo bem explicadinho pra audiência entender), Sherlock Holmes volta ao mundo junto de seu pet, Mickey Mouse Holmes, e dos colegas Ursinho Pooh Holmes e Popeye Holmes para desvendar um enorme mistério: ele precisa readquirir seus direitos de imagem para evitar novas adaptações cinematográficas em seu nome. Pera, existe um mundo pré-Keith Richards? Mundo Pré-Keith Richards: o mundoUma série-documentário “tipo BBC” (mas com narração em IA para cortar custos) trazendo a história do mundo a partir dos olhos de Keith Richards, com efeitos especiais para cada substância utilizada durante o período retratado no episódio. Pior que essa ideia não é ruim, hein? — ou nosso parâmetro está desregulado, já que uma das ideias anteriores da estagiária incluía uma imersão de “Richards, o Little”, no mundo de Avatar. Se alguém tiver o contato do Keith Richards, manda lá. A gente troca os direitos por maconha. Charlie Kaufman por Charlie Kaufman: a vida dentro da minha bunda (ou Sinédoque John Malkovich Brilho Eterno Adaptação)Neste filme extremamente elogiado na demografia de escritores, jornalistas e demais amigos em transição de carreira, o protagonista (chamado de “Charlie”, mas também de “Protagonista”) precisa escrever o próprio filme enquanto o filme acontece, ao mesmo tempo que lida com dilemas muito interessantes a qualquer cidadão, como a dura entrega de seu livro ou a estreia de sua peça. E aí tem uma namorada, alguma coisa assim, e no final o filme percebe que é um filme, embora prefira ser chamado de “autoficção”. Termina numa página de roteiro. Com Charlie Kaufman. Sei lá. Roteiro adaptado ao público brasileiro por todos os escritores que publicam “autoficção” ou aparecem nesses podcasts literários de fofoca. Ainda Estou Aqui 2: uma ode ao rock nacionalPara celebrar o sucesso do cinema brasileiro, que tal cumprir o papel intrínseco do capital e vassourar só um pouquinho? Chega de comentários políticos chatos e dramas familiares burgueses. Ainda Estou Aqui 2 promete reconstruir a testosterona dos filmes de ação oitentistas, tentando equilibrar todas as explosões com o que há de mais indolente na nossa criação: o rock nacional dos anos 1980. Pra que almejar criatividade se você pode copiar “lá de fora” e rezar pra ninguém perceber? E é assim que Rambo (o Stallone já topou coisa pior) resgata Rubens Paiva na prisão (ele não morre no final do primeiro filme, né? Eu não assisti ainda!). Para muitos que leram a primeira versão do roteiro — basicamente, a IA trazendo reforço positivo para qualquer pergunta —, trata-se do melhor longa-metragem de IA de Sylvester Stallone desde Os Mercenários (2010) — e o primeiro com trilha sonora do Barão Vermelho. Samurai Bebop: o Dorama (ou Boomer Goes to Asia)“Por que essas crianças gostam tanto do Japão? Por que minha filha quer visitar a goddamn Coreia? Qual a diferença entre Japão e Coreia? Como assim existem duas Coreias? Meu pai lutou contra qual delas?” é exatamente o que algum executivo (“C-level”) com poder de decisão (e “amor ao cinema” no currículo) está questionando agora em alguma “sala de descompressão” da Netflix. Por isso, Samurai Bebop: o Dorama promete o maior slop entre todos os slops de criação preguiçosa com viés americano. Sem trocar milhas, pés, Fahrenheit, jardas e, Meu Deus, isso já ficou cansativo. Enfim, um dorama, e a gente não sabe o que é dorama. A gente é boomer? Okay, three, two, one, let’s jam! Casa dos Espíritos: Fantástico Visto de CimaA fronteira dos gêneros é uma invenção do capitalismo ou até mesmo do mercado literário. Pensando nisso — e acreditando que nossas ideias devem ser livres para fracassar simultaneamente em vários gêneros —, Casa dos Espíritos: Fantástico Visto de Cima quebra a quarta parede ao trazer o melhor do realismo fantástico para gringo ver misturado ao célebre programa dominical “Fantástico”. No lead, uma verdadeira latino-americana chamada Eréndira (Jennifer Lopez) com filtro amarelo incorpora coisas estranhas ao ordinário, como baseball, com muita poesia e cenas inverossímeis, a exemplo de um singelo pug voador que também faz as vezes de cinegrafista. O pug representa a derrocada do sistema de informação diante das novas tecnologias, ao passo que seu parceiro, um guarda-roupa falante, representa o “potencial guardado” da América Latina. Em seguida, Jennifer Lopez também quebra uma quarta parede, isto é, literalmente – porque o roteiro também é de Charlie Kaufman! Ou, ao menos, a ideia de Charlie Kaufman da IA em sua versão gratuita. Por fim, ouvimos um rico diálogo: “wow, você quebrou a quarta parede?”; “sí”, responde a argentina J.Lo, “yo la broke it”, “porque aquí vive mi abuela desalmada”, para ninguém perder nada em sua segunda tela. |
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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
Adaptações imbecis que ninguém pediu
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