Passado, presente, ruídos do futuro: para melhor entender ou desengajar de um projeto culturalCorreios; internacionalização tímida; palavrório infame; ausência de fricção.Olá, assinante e colaborador do RelevO. Bem-vindo à primeira circular de 2026. Hoje, traremos três recados para serem lidos antes ou durante as trombetas do Apocalipse. 1.2025 cortinou-se com uma crise pesada nos Correios, instituição pública que novamente passa por dificuldades de caixa, ambiciona uma reestruturação a longo prazo e teve paralisação parcial dos serviços. É um cenário que nos preocupa imensamente. “Mas, gente, por que insistir com esse pessoal? O serviço não presta!!!”. Pois bem, com todos os altos & baixos da estatal, em 15 anos de circulação, não encontramos nenhum aparelho logístico com preço tão competitivo e capilaridade irrestrita como a ECT (Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos). Os Correios são um relacionamento tóxico que mexe com o nosso coração. Para um impresso de literatura independente, assim como para uma parcela significante do mercado literário, os Correios representam a única alternativa de competitividade. Ou é usar os serviços dos Correios ou é aumentar o preço numa paulada só, lamentando as condições de dumping de Amazon & cia., que certamente não se importam com as margens de outros players. Contudo, reconhecer a importância dos Correios não significa não cobrar a eficácia do serviço — até porque, todo mês, pagamos regiamente o nosso boleto, correspondente a 35% do nosso faturamento.
No nosso caso, mais especificamente, fazemos assim: a reclamação entra via e-mail ou redes sociais. Logo, conferimos a data do envio do malote. Entendemos que um prazo adequado de envio + recebimento é de cinco a sete dias úteis. “Sim, devia ter chegado mesmo”. Então, entramos em contato com o CDD (Centro de Distribuição Domiciliar) local, buscando entender porque até mesmo as entregas com registro andaram atrasando no fim de ano. Independentemente das respostas dos Correios, enviamos mais um malote, entendendo que é preferível receber dois malotes iguais do que nenhum. Um passo antes, na média e em cenários não caóticos, as alegações dos Correios passam por três linhas:
O ponto C (que na verdade é um 3!) nos preocupa muito porque nos deixa em uma posição vendida. Mandamos os exemplares pelo sistema de Mala Direta Básica, sem registro, justamente para conseguir dispor de valores de assinatura praticáveis. Quando recebemos a reclamação e o exemplar de fato não chegou dentro da margem esperada (até a metade do mês), só nos resta enviar pelo sistema com registro, geralmente cinco vezes mais caro. É como dobrar a dose do destilado de sua preferência. E por que não mandamos somente com registro? O cálculo é simples e dolorido: se um envio normal sai em média por R$ 3, o envio com registro chega a R$ 15. Em uma assinatura anual (que sai por R$ 80), sem embutir os demais custos — como valor unitário do exemplar, envelope, etiqueta, transporte & afins —, em cinco meses de não chegada regular dos exemplares, já gastamos todo o valor bruto da assinatura de 12 meses. É a receita perfeita do déficit. Mais: a experiência do leitor com o produto fica totalmente comprometida. A partir da nossa planilha de controle de reclamações, percebemos que 80% dos assinantes que tiveram problemas com o recebimento dos exemplares em sua primeira temporada não renovaram a assinatura no ano seguinte. Com razão. Contamos tudo isso para reforçar que buscamos a melhor experiência possível para o assinante do RelevO, desde o processo de compra até a última página do mensário. Não nos escondemos das reclamações nem prometemos soluções mágicas, mas, ao mesmo tempo, não somos a Amazon. Por fim, acreditamos que os Correios ainda são o melhor caminho para projetos independentes como o nosso. Seu exemplar está atrasado? O vizinho roubou novamente seu malote? O gato dormiu três dias seguidos em cima do envelope pardo e o jornal desapareceu? Não deixe de nos escrever tanto por aqui como em nossas redes sociais, sobretudo no Instagram, onde temos mais presença digital. 2.A distribuição é um dos maiores interesses deste editor, que, desde a primeira edição, em setembro de 2010, participa ativamente do processo de chegada dos exemplares até os leitores. Dividimos o percurso em três etapas:
“Qual é o sentido de enviar exemplares de graça para os pontos? Isso não depõe contra os assinantes?” — exatamente, de modo reverso! São justamente os assinantes que custeiam que o RelevO chegue, por exemplo, em Cacoal, na região central de Rondônia, ou na Agridoce Livraria e Sebo, em Erechim, no Alto Uruguai gaúcho. Um jornal precisa se descentralizar para ser lido individual e coletivamente. Atualmente, são aproximadamente 350 pontos de distribuição espalhados pelo Brasil todo e, a partir de fevereiro, teremos o acréscimo de dois pontos internacionais: Eclipsamor Libros, em Rivera-Uruguai (!), e Tao Librería de Iguazú, em Puerto Iguazú-Argentina (!). Ambos os espaços se localizam nas fronteiras com o Brasil. Aliás, se você conhece pontos culturais legais para o RelevO chegar e que não constam na nossa distribuição, conte; indique pra gente; entregue um exemplar do nosso periódico; esqueça a placa de “Não Perturbe”. Se quiser patrocinar o envio para um ponto somente seu, com o seu nome indo no malote como apoiador do envio, estamos aqui para fazer a tecnologia do recebimento acontecer. 3.Estamos com ombudsman nova. Priscila Branco é a 17ª ocupante do cargo, que existe desde 2014. Pesquisadora da poesia de mulheres, ela é editora de livros e da revista Toró e colunista da revista Cassandra. Atua como analista de literatura no Sesc Nacional, coordenando projetos como Prêmio Sesc de Literatura, Arte da Palavra, Revista Palavra e a curadoria do Sesc na Flip. Seus poemas já foram publicados em diversas revistas brasileiras, traduzidos para o espanhol (nas revistas mexicana Granuja e peruana Kametsa) e para o tcheco (na revista Tvar). Priscila ficará de seis a nove meses como detentora do cargo. Seus textos, que não podem ser editados pelo periódico, analisarão as edições, o meio literário e as petições do assinantes. Ao lado da Folha de S.Paulo e de O Povo, de Fortaleza, o RelevO é um dos únicos três jornais do Brasil com o serviço Na primeira coluna de seu mandato, Priscila mencionou uma série de reclamações de leitores e pontos de distribuição do Jornal em relação à linguagem das últimas edições, com suposto excesso de palavrões.
A discussão, que cresceu de volume em nossas redes, muito nos interessa porque, afinal, denota que somos lidos e causamos algum tipo de espécie em nosso leitorado. Entre críticas negativas e defesas mais enfáticas, perdemos três assinantes e tivemos a entrada de dois novos assinantes. Bom? Ruim? Vemos por outra ótica. Cada vez mais, temos pensado no conceito de fricção de conteúdo. Percebemos — e nem somos lá muito inteligentes — que as plataformas são desenhadas para eliminar qualquer esforço do usuário, tornando o consumo de conteúdo automático, contínuo e altamente viciante. Essa fluidez excessiva não é neutra e nos afasta de algo profundamente humano: o esforço consciente, a escolha deliberada e a alegria da descoberta. Ao remover obstáculos e focar em recompensas repetitivas, as redes sociais reduzem a nossa agência, nos empurrando para a gratificação instantânea e para um consumo passivo de conteúdos confortáveis. O RelevO existe justamente como contraponto a essa lógica da fluidez vazia. Ao optar pelo impresso, pela leitura sem notificações, pela curadoria humana e pelo tempo lento, recolocamos a fricção como valor. Não queremos praticar a autofricção, mas tampouco queremos entregar edições mornas, com textos limpinhos e excelentes para a educação do jovem brasileiro sem idade para tirar CNH, embora saibamos de jovens que andam lendo o nosso periódico à revelia de adultos comprometidos com a educação brasileira. Ler o RelevO exige parar, folhear, escolher textos, atravessar páginas, gostar, odiar. Não há algoritmo decidindo o que vem a seguir. Nossa proposta de fricção não almeja afastar leitores nem gerar perda de caixa — repetimos: não somos a Amazon. Entendemos que a experiência de leitura também é uma forma de provocação, de lidar com o contraditório, de resistir à passividade, à anestesia digital e à ideia de que tudo precisa ser fácil, rápido e do jeito que gostamos. Em um mundo desenhado para nos preservar a reflexão, o RelevO pode gerar incômodos. Mas talvez sejamos otimistas: assim como perdemos assinantes por conta de um estilo um tanto mais… sujo, acreditamos que existam leitores espalhados por aí — e dispostos a nos assinar — que possam gostar dessa experiência um tanto arruaceira de existir no mundo. |
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